Afinal, o que é Economia Circular?

A Economia Circular (EC) é um novo conceito de prática econômica que abarca um campo de conhecimento multidisciplinar

Trata-se de uma área de conhecimento relativamente recente e por esse motivo há uma multiplicidade de definições por aí. O conceito mais amplamente disseminado atualmente é o da Fundação Ellen MacArthur (FEM), segundo a qual EC consiste em “uma economia circular é restaurativa e regenerativa por princípio. Seu objetivo é manter produtos, componentes e materiais em seu mais alto nível de utilidade e valor o tempo todo, distinguindo entre ciclos de materiais técnicos e biológicos. Essa abordagem busca, em última instância, dissociar o desenvolvimento econômico do consumo de recursos finitos e eliminar externalidades negativas da economia.” (FEM, 2017, p. 10).

A abordagem da EC baseia-se em três princípios: preservar e revitalizar os ecossistemas controlando os recursos não renováveis e equilibrando os fluxos dos recursos renováveis; prolongar o uso e otimizar o rendimento dos componentes de produtos e materiais e promover a eficácia do sistema sanando suas dificuldades e externalidade negativas. A EC sintetiza um conjunto de conhecimentos provenientes de áreas como a própria Economia, a Engenharia, a Ecologia e o Design. Os conceitos apontados como referência para a EC são a economia de performance de Walter Stahel (2010), a ideia de Biomimética articulada por Janine Benyus (2007), a ecologia industrial desenvolvida mais notoriamente por Frosch e Gallopoulos (1989), o design Cradle to Cradle de William McDonough e Michael Braungart (2002).

A economia de performance (STAHEL, 2006) tem como pilares o prolongamento do ciclo de vida do produto por meio de produtos mais duráveis e prevenção de desperdício. Também aborda a importância de vender serviços ao invés de produtos com a finalidade de produzir riqueza e economia com menos recursos por meio de negócios com valor de uso como seu valor central. A Biomimética tem como princípio a natureza como modelo, medida e mentora entendendo que quanto mais os processos humanos se assemelharem aos ciclos naturais maiores as chances de serem eficazes.

A Ecologia Industrial (EI), por sua vez, é um campo interdisciplinar que propõe a reformulação radical do modelo de negócios e a colaboração intersetorial. Já o design Cradle to Cradle, tem a ideia central de que os recursos sejam geridos em uma lógica circular de criação e reutilização, em que cada passagem de ciclo se torna um novo ‘berço’ para determinado material criando um fluxo de “metabolismo técnico” de materiais industriais.

Ações direcionadas para a transformação dos ciclos produtivos, como a EC, tornam-se cada vez mais relevantes a partir da percepção de que não é possível falar em sustentabilidade ou mesmo desenvolvimento sustentável sem falar de uma outra forma de organização econômica, geração de valor, fabricação e consumo de produtos. Essa não é uma ideia nova, está presente desde as primeiras discussões a respeito dos impactos do crescimento econômico na sociedade e no meio ambiente. No Brasil, pode-se citar os economistas Celso Furtado e Ignacy Sachs como precursores e no contexto internacional tem destaque a bióloga Rachel Carson, o físico Fritjof Capra e Enrique Leff, sociólogo ambientalista. Isso sem mencionar os povos tradicionais, indígenas e quilombolas, cujas formas de vida foram e continuam sendo ignoradas e até mesmo combatidas em função do crescimento econômico, agora com o nome desenvolvimento.

No entanto, as esperanças se renovam com as novas propostas, mesmo com resultados ainda incertos em muitos casos, a busca por alternativas ainda é melhor o caminho e, em direção ao que é novo, não há certezas. A EC tem um grande potencial para criar outra forma para a humanidade criar seus meios de vida. No entanto, para que todo esse potencial se realize, é necessário que cada pessoa, empresa, cidade e país e esteja disposto a reinventar-se.

A China foi primeiro país a ter uma lei de Economia Circular, em 2009, chamada Lei de Promoção a Economia Circular após ter definido em 2005 que a EC seria o principal meio de reduzir a pesada exploração de recursos naturais no país (MATHEWS; TAN, 2011). Na Europa, em 2008, a Comissão Europeia desenvolveu a Diretiva de Resíduo 2008/98/EC e em dezembro de 2015 publicou o Plano de Ação para a Economia Circular, um quadro abrangente de políticas públicas que visa redefinir a abordagem social da produção e do consumo de bens e serviços (MCDOWALL et al., 2017).

No Brasil, já existem pequenos passos, um deles está relacionado ao ODS 12, da Agenda 2030, o qual consiste em “Produção e Consumo Responsáveis” e suas metas. Nosso país associou a meta 12.5 a EC nos seguintes termos: “Até 2030, reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da Economia Circular e suas ações de prevenção, redução, reciclagem e reuso de resíduos.” Nesse mesmo sentido de aproveitamento máximo de materiais, reciclagem, reaproveitamento e prevenção está a nossa Política Nacional de Resíduos Sólidos. Apesar de EC não se restringir apenas a resíduos, mas sim a toda uma lógica econômica e seu ciclo produtivo, o aproveitamento dos materiais encaminhados para descarte é uma das forças motrizes de uma EC, justamente porque reduz e previne a degradação ambiental causada pelo volume de resíduos no Brasil e no mundo e torna-se fonte de matéria prima novamente, fechando o ciclo.

O que tudo isso tem a ver com a Recíclica? Aqui você encontrará textos e outros conteúdos que fomentem uma melhor gestão de resíduos por meio da EC, bem como reflexões a respeito dos nossos hábitos e valores que estão diretamente ligados ao tema. Além disso, poderá utilizar este canal para dar o melhor destino para os materiais estimulando a reutilização e a reciclagem. Temos muitos a fazer juntos. A plataforma é para todo o Brasil, mas estamos localizados em Florianópolis e para saber mais do que queremos criar nessa cidade clique aqui. Obrigada por estar nessa com a gente, para se tornar ainda mais parceiro, é só fazer contato.

Referências:

BENYUS, Janine M. Biomimética: Inovação Inspirada pela Natureza. São Paulo: Cultrix, 2007.
BRAUNGART, Michael; MCDONOUGH, William. Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things. New York: Farrar, 2002.
FROSCH, Robert; GALLOPOULOS, Nicholas. Strategies for Manufacturing. Scientific American, 1989. Disponível em: http://isfie.onefireplace.com/resources/Documents/Strategies_For_Manufacturing_Sci_American_1989.pdf.
FUNDAÇÃO ELLEN MACARTHUR CE100 BRASIL. Uma economia circular no Brasil: uma abordagem exploratória inicial. São Paulo: CE100 Brasil, 2017.
MCDOWALL, William; GENG, Yong; HUANG, Beijia; BARTEKOVÁ, Eva; BLEISCHWITZ; TÜRKELI. Serdar; KEMP, René; DOMÉNECH, Teresa. Circular Economy Policies in China and Europe. Journal of Industrial Ecology, p. 01-10, 2017.
MATHEWS, John; TAN, Hao. Progress Toward a Circular Economy in China The Drivers (and Inhibitors) of Eco‐industrial Initiative.
STAHEL, Walter R. The Performance Economy. Londres: Palgrave-MacMillan, 2010.

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